quarta-feira, 23 de maio de 2018

Caixas enormes e inserts inúteis - opinião por Micael Sousa

Uma daquelas coisas que me irrita são as caixas excessivamente grande de determinados jogos. Quer dizer, também me irritam as pequenas e especialmente os chamados “inserts”. Então vamos por partes, por componentes como nos jogos.

Fonte da imagem: https://www.wsj.com/articles/SB10001424127887324188604578541843266186054

Há jogos cuja caixa é enorme e lá dentro encontramos meia dúzia de coisas. Aquele trambolho vai ocupar muito mais espaço do que seria necessário. Isto a mim irrita-me bastante, pois ando sempre a dizer que os jogos de tabuleiro são produtos sustentáveis. Caras editoras. Ocupar espaço a mais destrói esse potencial, que não é de minimizar. Peguem nisso, desse fator diferenciador para promover os jogos. Os jogos podem ser realmente sustentáveis, a múltiplos níveis, mas ocupar espaço vazio sentido é problemático e insustentável, pois obriga a que tenhamos de ter mais espaço de arrumação, com áreas maiores nos nossos lares, que implicam casas maiores. Com essa necessidade ocupamos mais solo, o que nos força a viver cada vez mais na periferia e com isso a gerar mais viagens para a vida do dia-a-dia. Isto é um verdadeiro problema. Minhas editoras lindas, pensem nisso.

Por outro lado, não se metam a reduzir as caixas ao ponto de não caber nada lá dentro, especialmente quando têm já expansões na manga que não adicionaram ao jogo para nos cobrar mais uns euros mais tarde.

Já os “inserts”, aquelas coisas de plástico moldado que alguns jogos trazem no interior, produzindo divisórias que servem para “organizarmos” os componentes, são quase sempre terríveis. Escrevi “organizar” entre aspas porque o que os inserts mais fazem é: desorganizar os componentes. Quase todos os inserts são concebidos para utilização na horizontal. Mas nós guardamos e transportamos os jogos na vertical. Os jogos que guardo empilhados na horizontal esmagam-se com o peso. E como as caixas são volumosas, quase sempre para nada, nem sequer têm sustentação para serem empilhados de forma resistente uns sobre os outros. Já não consigo contabilizar quantos inserts mandei para o lixo ou quantos tenho de manter para dar estrutura e solidez à caixa tendo de recorrer na mesma a sacos. Depois quanto penso que aquilo eventualmente contribuiu para o jogo ser mais caro ainda fico mais irritado. Metam pelo menos uma tampa nos inserts, como acontece no Feast for Ódin ou no Francis Drake.

Bem. Em resumo parece que há aqui muito para fazer na indústria no que toca à otimização das caixas dos jogos. Só para não dizerem que só digo mal há um jogo que queria destacar pela positiva. Clans of Caledonia tem imensas peças, não tem “inserts” e os sacos servem perfeitamente. Tem uma caixa pequena/média cabendo lá tudo, sendo um eurogame de dimensão considerável. Sigam este exemplo. Vamos lá pensar “dentro da caixa”. Os clientes agradecem.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A importância dos perfis individuais dos jogadores na escolha dos jogos - opinião por Micael Sousa

Estive no "4.º encontro sobre jogos e mobile learning", organizado pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Fui lá na espetativa de tentar perceber o que se andava a investigar e trabalhar na academia sobre os jogos, especialmente nesta área da educação, com a qual não tenho muita proximidade teórica.

autor: Micael Sousa

No encontro, a esmagadora maioria dos casos referiam-se aos jogos digitais, o que já seria de esperar tendo em conta a dominância tecnológica. No meu caso participei como relator da experiência dos Boardgamers de Leiria, na utilização de jogos de tabuleiro modernos em vários contextos de inovação por este grupo de entusiastas. Pelo que percebi, enquanto fazia a minha intervenção e aquando das respostas a questões, notei uma curiosidade geral sobre isto dos jogos de tabuleiro modernos. Apesar de um certo desconhecimento generalizado, em conversa com alguns investigadores que se se dedicava mais à conceptualização, encontrei quem conhecesse estes jogos e as atividades dos Boardgamers de Leiria. Fiquei surpreendido especialmente pela parte dos Boardgamers de Leiria, porque estamos em Leiria, afastados das universidades que se dedicam a estes assuntos e das grandes metrópoles onde é mais fácil juntar mais interessados em temas de franja e subculturas como esta dos jogos de tabuleiro.

De todas as comunicações impressionou-me a de Nelson Zagalo, professor na Universidade de Aveiro. Abordou a influência dos perfis dos jogadores, no modo como se experimentam os próprios jogos, e de como se formavam dois grandes grupos de jogadores: os sistematizadores e os empatizadores. Segundo Zagalo os sistematizadores focam-se em explorar os sistemas lógicos dos jogos, compreender os padrões e melhorar competências na execução das tarefas no jogo. Já os empatizadores adoram conhecer e aprofundar as relações humanas, as histórias e as emoções geradas ou inerentes ao jogo, envolvem-se nos dramas e contextos sociais dos jogos.  O investigador referiu que estes serão os casos exemplificativos tipificados, que será muito provável que um jogador padrão apresente caraterísticas de ambos os grupos, podendo apresentar tendências para um determinado perfil sem com isso deixar de poder exibir portamento associados a traços do outro tipo.  Com isto para advertir para os casos em que se usam jogos para determinados fins, em que não se atendem aos perfis, o ato de “mascarar” um jogo não garante sucesso só porque é feito de forma alternativa. A essência da experiência de jogo terá sempre influência e, mais tarde ou mais cedo, as pessoas vão perceber que os jogos é que as estão a jogar e não o contrário.

A minha prática pessoal de vários anos a lidar com muitos jogos de tabuleiro e ainda mais reações diferentes aos vários jogos, em eventos públicos, familiares e entre amigos e conhecidos, leva-me a fazer paralelismos com as constatações de Zagalo. Diria que encaixam na perfeição. Quem tem por hábito apresentar jogos e colocar novos públicos a jogar apercebe-se que uma escolha de um jogo desadequado pode ser suficiente para que a pessoa que o experimenta nunca mais queira jogar qualquer outro jogo. Partindo da definição de perfis de Zagalo, se propuser um party ou role play game a um jogador sistematizador dificilmente ele quererá jogar ouro jogo de tabuleiro modernos, ficando toda a experiência com jogos condicionada. O mesmo se verifica inversamente para os empatizadores, para aqueles que um eurogame, de estratégia, gestão e otimização, poderá ser um verdadeiro frete. No caso dos jogos de tabuleiro, por serem atividades profundamente sociais, o grupo com quem se experimenta determinado jogo, mesmo que seja um jogo de sistematização de processos de eficiência (como os eurogames), tem um impacto muito grande. Essa influência tanto pode ser positiva como negativa, e acontece para todo o tipo de jogos. A capacidade de dar profundidade e emersão no tema do jogo pode ser influenciada pelo mau ou bom ambiente do grupo e do contexto. Um ambiente divertido e empático, que se pode gerar mesmo nos jogos mais abstratos e mecânicos, pode garantir essa capacidade de integrar as pessoas nos jogos. Isto é possível e acontece em alguns jogos de tabuleiro, aqueles que estão tão bem desenhados que o melhor componente do jogo são as próprias pessoas.

Aconteceu nos encontros dos Boardgamers de Leiria situações inadequação dos jogos aos perfis. Os perfis psicológicos dos jogadores são preponderantes para acertar no jogo certo. Ao olhar para uma pessoa desconhecida é muito dificil conseguir avaliar qual o melhor jogo a experimentar numa primeira experiência. O que se costuma fazer, antes de dar inicio ao um jogo, consiste em falar um pouco com a pessoa de modo a perceber que tipo de jogos gosta de jogar, mesmo que sejam jogos de vídeo ou outras coisas. Depois é arriscar com base nessa informação, escolhendo algo simples para começar, sendo que a própria simplificada pode ser condicionante para cativar ou não. Uns gostam, outros não, uns voltam outros nem por isso. Registamos casos de quem volta muito tempo depois, experimenta outro jogo e depois confessa que afinal não apreciou a primeira experiência mais adorou a segunda. Por fim pode acontecer algo ainda mais estranho, que são as pessoas que querem ter experiências de jogo totalmente diferentes dos seus comportamentos sociais habituais. No meu caso tento implementar sempre que posso processos colaborativos nas instituições e projetos em que me envolvo, mas depois falta-me a paciência para jogar esses jogos como atividade lúdica. No caso da minha esposa, que trabalha profissionalmente e tem paixão pela análise de contextos e narrativas sociais na área da psicologia, apenas gosta de jogar os puros eurogames, profundamente mecânicos e sistemáticos, onde a dimensão interativa social e a empatia pouco relevantes são. Na minha opinião está aqui imenso assunto para ser discutido e investigado, especialmente em experiências e práticas de jogos de tabuleiro modernos. Haja oportunidade e vontade para isso.


Carvalho, A. A., Pons, J. P., Marques, C. G., Cruz, S., Moura, A., Santos, I. L., & Guimarães, D. (2018). Atas do 4º Encontro sobre Jogos e Mobile Learning. Coimbra: CEIS20.  http://hdl.handle.net/10316/48542

domingo, 15 de abril de 2018

Os jogos são como peças de teatro e os designers dramaturgos? – Opinião por Micael Sousa

Costumo dizer que depois de um jogo de tabuleiro bem jogado, especialmente aqueles com mais substância, há sempre uma história para contar. Isto pode ser mais forte nuns jogos que noutros, mas acontece quase sempre naqueles jogos modernos mais bem cotados e populares entre a comunidade de gamers. Acontece nos eurogames e jogos económicos também. Nem precisa de ser um jogo de storytelling para haver algo que falar no final. Quantos de nós, depois de estar umas duas horas a jogar, não gastámos mais meia hora a discutir o que se passou no jogo? Quais as estratégias que adotamos, como interferimos uns nos outros. Aquelas jogadas brilhantes e as outras que se revelaram péssimas, algumas mesmo ridículas. Nos jogos de negociação e onde podemos tentar manipular os adversários, gerar alianças e simplesmente passar dissimulados, entramos num role play que se aproxima de uma tentativa de experimentação de encenação, onde nós próprios somos os atores. Se o jogo for de role play e storytelling então a associação é direta. Visto de fora, quando analisado por terceiros, um jogo de tabuleiro, serve para analisar comportamentos dos atores sociais envolvidos.

Autor: Luci Gutiérrez Fonte da imagem: https://www.newyorker.com/magazine/2018/01/22/shakespeare-off-the-cuff

Estava então eu a ler o livro “Loving Eurogames: a quest for the Well played game” de Scott Erway e deparei-me com uma analogia semelhante à que referi anteriormente. Para o autor os jogos geram um entretenimento de cariz dramático. Numa associação à obra Poética de Aristóteles, sobre as razões que levavam os dramas e comédias do teatro grego a gerarem risos e lágrimas nas audiências, Scott Erway desenvolve a sua teoria. O segredo para os efeitos emocionais individuais e coletivos do teatro reside na estrutura dos atos. No primeiro ato as circunstâncias são introduzidas, o que poderá ser visto como as eventuais explicações necessárias das regras e o setup de um jogo. No segundo ato são realizadas as escolhas irreversíveis que vão construindo a dinâmica do jogo e contribuem para aumentar tenção, tal como a construção das bases para a estratégia que os jogadores pretendem implementar para atingir os objetivos. O jogo vai sendo mais intenso à medida que chega ao fim, tal como uma peça de teatro ou filme. Depois acontece o fim, o desenrolar da ação no terceiro ato, a surpresa, o culminar e definitivo da concretização do que vinha a ser construído até o ponto em que tudo fica decidido. Bem, aqui a descrição tanto dava para uma peça dramática/cómica como para um jogo. Nas últimas jogadas é feito o último confronto e esforço para completar os objetivos, ficando evidente se a competição ainda vale a pena ou se é inevitável o desenlace.

Então um autor de um jogo é como um dramaturgo que constrói os palcos de interação para uma história. As personagens numa peça e os cenários representam arquétipos. Nos jogos também se invocam esses arquétipos através dos componentes, que nos ativam a consciência e geram narrativas e meta-narrativas. Provavelmente isto irá envaidecer os designers de jogos, provavelmente justamente. Será um jogo de tabuleiro uma gamificação de uma peça dramática? Se for estamos perante mais uma das vantagens de jogar este tipo de jogos. Vamos a palco no tabuleiro? Mas nem todos os jogos conseguem gerar isto nos jogadores, nem todos os jogos são bons e nem todos os jogadores apreciam esta produção dramática.

Referências bibliográficas:
Erway, Scoot. Loving Eurogames: a quest for the well played game. Carnation: Griffin Creek Press, 2017.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Quem são os campeões dos jogos de tabuleiro modernos? - opinião por Micael Sousa

Na última Leiriacon, em contacto com a imprensa generalista que pretendia cobrir o evento, surgiu um pedido por parte dos jornalistas que me deixou a pensar. Queriam falar com um campeão de jogos de tabuleiro. Pareceu-me estranho o pedido. Mas para quem esteja fora do mundo dos jogos de tabuleiro modernos talvez seja um pedido mais do que óbvio. Se centenas de pessoas se juntavam naquele evento de jogos, em que passam dias a jogar, não faria sentido falar com os campeões? De uma forma ou de outra, alguém se deve destacar a ganhar mais partidas.

autor: Alexander Zudin
Fonte da imagem: http://www.irancartoon.com/gallery-of-cartoons-by-alexandr-zudin-russia-1/

Mas afinal o que seria um campeão no contexto dos jogos de tabuleiro modernos? Faz sentido escolher um jogo entre milhares de jogos diferentes de confirmada qualidade? E qual seria o tipo dominante? Poderíamos escolher quem ganhasse torneios em que se jogasse um número determinado de jogos diferentes? Faria isso sentido?

Seja como for, existem campeonatos de jogos de tabuleiro modernos. Existem campeonatos de Catan e Carcassonne, só para destacar os mais conhecidos. Mas serão representativos do hobby e da indústria ou apenas uma curiosidade como tantas outras? Quem obtém bons resultados nestes torneios provavelmente defenderá a importância dos mesmos. Terá bons argumentos. Não duvido. Eu diria, mesmo assim, que têm importância relativa. Interessante, mas não preponderante para este mundo dos jogos de tabuleiro tal como se tem organizado. Tendo em conta o contexto em que nasceram os jogos de tabuleiro modernos, o aspeto de competição através de campeonatos pode ser contraditório aos valores associados à sua génese. Este assunto será tratado em tema posterior, relacionado com o nascimento dos eurogames. Talvez os campeonatos façam mais sentido para os jogos de inspiração não europeia tendencialmente mais conflituosos, ainda que os eurogames incentivem uma competição indireta pelo mérito e eficiência/criatividade. Quem sabe tudo irá mudar no futuro e o hobby tenderá para uma forte componente competitiva. Talvez falte esse aspeto para alargar ainda mais o número de utilizadores destes jogos.

Sendo os jogos de tabuleiro modernos uma industria criativa, cujo principal produto é a criatividade inerente aos próprios jogos produzidos, poderão os campeões dos jogos de tabuleiro ser os próprios designers? Os autores, do design das mecânicas de jogo e grafismo, dedicam imenso tempo aos seus jogos. Alguns demoram anos a serem desenvolvidos, continuamente aperfeiçoados e testados. Existe por parte dos designers (e editoras) um óbvio interesse comercial, mas muitos deles apenas se dedicam à atividade como paixão onde a componente monetária é pouco significativa. Por vezes é só mais um hobby ou um pequeno complemento profissional.

Então concluiria que no mundo dos jogos de tabuleiro modernos podem existir muitos campeões. Diria que os principais campeões são os utilizadores dos jogos, pois são as pessoas, com a sua ação perante os jogos, os principais componentes de um bom jogo. São as pessoas que materializam a criatividade física dos jogos. Os utilizadores estão assim, na minha opinião, quase ao mesmo nível dos designers. Já os campeões dos torneios terão o seu mérito, mas parece-me que ser coisa de outros campeonatos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Apresentação do nosso canal no Youtube - por Micael Sousa

Era inevitável. Tínhamos de experimentar o formato vídeo. Pois é, criámos um canal de Youtube onde vamos fazendo vídeos de teste. A coisa está ainda fraquinha, mas é normal, provavelmente nunca será nada de espetacular. Nunca se sabe. Poucas pessoas ainda sabem do nosso canal e a experiência, para nós, é praticamente nova. Mas nunca houve medo de arriscar aqui neste projeto, mesmo em temas mais polémicos. Fazer vídeos é só mais uma aventura.

No novo canal vamos tentar seguir os princípios basilares aqui do blogue, aqueles que têm levado a que milhares de pessoas leiam alguns dos nossos textos - ainda custa a acreditar na verdade. Eventualmente faremos reviews de jogos, vamos abrir umas caixas e outras coisas do género. Para além disso tudo queremos continuar a tratar da filosofia dos jogos de tabuleiro e do meta jogo - aquilo que está para além dos jogos. Não estamos sozinhos nesta viagem, contamos convosco. As abordagens temáticas que propomos só fazem sentido se forem discutidas, contra-argumentadas e rebatidas, sendo na melhor das hipóteses - para nós - aprofundadas. Seja como for estamos por aqui para continuar a falar e escrever sobre jogos de tabuleiro, uma atividade que é muito mais que uma moda e está para ficar. 


sexta-feira, 16 de março de 2018

Passeio pelas lojas de jogos de tabuleiro do Cartier Latin em Paris – por Micael Sousa

Se forem uns verdadeiros apaixonados por jogos de tabuleiro modernos e estiverem em Paris têm de reservar duas horas do vosso tempo para fazer um percurso numa das zonas mais belas da cidade que acolhe algumas das melhores lojas de jogos. O mais interessante destas lojas, para além de serem excelentes lojas de jogos de tabuleiro onde podem encontrar excelentes jogos, embora quase todos em francês, é que estão muito perto umas das outras. Não bastasse isso, localizam-se numa das zonas mais interessantes e pitorescas da cidade, na zona e imediações do antigo Cartier Latin e perto de alguns locais que merecem ser vistos e o ambiente urbano único que aí se conjuga ser apreciado.

Mapa geral do percurso que se faz a pé, devagar, em cerca de 30 a 45 minutos

Quando vou a Paris este é um dos primeiros percursos que faço para ver as novidades. Apesar de podemos aceder às novidades online, nas lojas, presencialmente, tal como acontece com os jogos, o sabor é outro. De notar que em cada país as novidades e tendências podem mudar, consoante os gostos locais e as apostas das editoras. Só isso tem imenso que se lhe diga.

Para além do obvio gosto pelos jogos o percurso que aqui vou recomendar contribui para desfrutar um pouco da autenticidade e particularidade da cidade de Paris. São os monumentos que se destacam, mas também toda a panóplia de lojas que ali encontramos, dedicadas às mais variadas coisas, especialmente a livros e passatempos muito específicos. Mesmo que não apreciem essas coisas vale a pena estar neste ambiente urbano pelo menos uma vez, com os sentidos alerta para captar todas as novidades e particularidades.

Vamos lá começar então. Vou partir do princípio que chegam de metro e saem na estação de St. Michel. Sair pode ser um bocado complexo, pois são imensas as saídas. Quando for a entrar recomendo usarem outra estação, pois, se quiserem usar os RER pode ficar complicado. Saiam numa das várias saídas da Place de St. Michel. Podem apreciar a praça e a sua fonte com as suas esculturas alusivas. Nesta praça vão encontrar várias lojas Gilbert Jeune, cada uma pertencente ao mesmo grupo de livrarias, mas cada uma especializada em vários temas. Se souberem ler francês vão encontrar aqui de tudo a preços fantásticos. Em vez de existir uma grande loja, toda a zona urbana parece um centro comercial de lojas que se conjugam, especialmente neste caso desta livraria. Podem então seguir para a loja Variantes (ponto 1 no mapa), na Rue Saint-André des Arts. A loja não é muito grande nem os preços são muito baixos, mas podem encontrar uma grande variedade de jogos de tabuleiro modernos e outros mais clássicos, de madeira, puzzles e revistas.

Loja Variantes - Rue Saint-André des Arts
Saindo da loja Variantes podem seguir novamente rumo à praça de St. Michel e caminhar pela via assinalada, vão entrar numa das zonas mais turísticas do Cartier Latin. Sigam a multidão pela Rue de La Huchette e dirigiam-se para a Livraria Shakespeare Inc., uma das mais icónicas e famosas do mundo, por ter sido propriedade de um inglês excêntrico que a foi construindo de forma orgânica e caótica. Tentem encontrar um livro em português se forem apaixonados por literatura, caso contrário entrem pelo menos para ver. Depois vão atravessar um pequeno jardim, o parque René Viviane, que pode ser útil para uma pausa de descanso (já aí pararei para confirmar se tinha todos os componentes de um Le Havre usado que tinha acabado de comprar na Star Player). Aqui podem ver a bela Notre Dame à uma distância que lhe eleva a escala e monumentalidade.

Parc René Viviane

Atravessem o parque e metam-se na Rue Lagrange. Ao lado do supermercado, onde podem comprar umas bebidas baratas e algo para comer (se voltarem ao parque à vinda do percurso faz sentido) vão encontrar a Star Player (Ponto 2 do mapa). Esta loja é maior que a anterior e os preços são mais simpáticos. Têm uma grande variedade de jogos de tabuleiro modernos, que neste espaço convivem com Warhammer e muitas miniaturas de todos os tipos. Podem encontrar alguns jogos usados para venda e duas mesas onde podem jogar alguns jogos vossos ou da casa. Um dos donos é lusodescendente. Com sorte podem apanhar lá o Manuel e trocar umas palavras em português com ele.

Loja Star Player - Rue Lagrange

Opcional: Em alternativa em seguirem diretamente para a Star Player, podem fazer um pequeno desvio, e passar primeiro pela loja da Games Workshop, se gostarem especialmente de miniaturas e de Warhammer. Para isso basta voltar à praça de St. Michel e seguir pela Hautefeuille. Depois podem voltar à praça e seguir pelo percurso recomendado.

Continuem pela mesma rua onde estavam e cortem à direita para a Boulevard Saint-German. Aqui vão começar a encontrar mais lojas dedicadas a múltiplos passatempos, alternadas entre livrarias, restaurantes e cafés. Sigam até ao cruzamento da loja Album Comics. Se gostam de revistas de banda desenhada, de filmes e de super-heróis vão adorar esta loja. Vale a pena entrar para ver mesmo que não seja para ver o nível a que chega este passatempo. Se estiverem a precisar de comprar uma varinha magica do Harrt Potter, uma espada do Senhor dos Anéis ou um lightsaber aqui é o local indicado. Tem alguns jogos, mas coisas muito escassa e apenas do âmbito dos temas da loja. Se quiserem ver mais lojas desse género existem mais nas proximidades, por exemplo a Plups Comicis e autra Album na Rue Dante, a caminho do rio e da Notre Dame. Nesta última vão encontrar imensas curiosidades. Aí já adquiri um parta chaves com o “verdadeiro anel” e um punho esquerdo do Hulk que uso como adereço partidário.

Loja Album - Rue Saint-Jacques

Subindo pela Rue Saint-Jacques, na esquina da direita vão encontrar a mítica Jeux Descartes, uma das lojas mais antigas de jogos de tabuleiro de Paris, mesmo em frente à mítica Sarbonne, da Universidade de Paris. Descartes, para além ser o nome do famoso filosofo francês resulta da conjugação das palavras “dados” e “cartas” (“Des” + “Cartes”). No piso térreo encontram jogos mais tradicionais, puzzles, conjuntos de xadrez, jogos para crianças e party games. Se descerem as escadas e chegam aos jogos mais pesados, aos eurogames, wargames e miniaturas. Aqui o efeito de cave cria um ambiente especial, do tipo Dungeon Crawler – isto pode ser apenas imaginação minha. Tal como em todas as outras os jogos estão praticamente todos traduzidos para francês. Os preços são mais elevados que os da loja anterior, mas se dominarem o francês peçam um cartão de cliente. Em compras de 150€ têm um desconto de 10%. Pode fazer a diferença, especialmente nos jogos que estiverem mais baixos. E podem encontrar alguns jogos originais também ou que não tenham dependência de texto.

Loja Jeux Descartes  Rue Saint-Jacques e Rue des Écoles

Podem seguir pela direita à saída da loja, passando pela Sarbonne e pelo local do museu de Cluny, de história, dedicado à Idade Média em particular, construído sobre as ruinas do antigo mosteiro dessa poderosa ordem monástica. Seguindo pela Rue des Écoles chegam a outro cruzamento. Em frente deparam-se com a livraria Gilbert Joseph em que encontrar vários andares de livros novos e em segunda mão a preços fantásticos. Desçam pela Boulevard Saint-Michel, onde se situa a livraria até à Boulevard Saint Germain de novo. Vão encontrar aqui várias cadeias de fast food internacionais, e um Mono Prix onde podem comer e beber umas coisas mais baratas, com sitio para sentar. Se quiserem apostar em coisas mais locais, típicas ou de cozinha do mundo não têm de recorrer à fast food, pois há oferta por todo o lado. Já sabem onde estão, podem ficar por aqui a explorar mais a cidade, apanhar o metro na estação de Cluny-Sarbonne ou voltar a pé para o rio e desfrutar da envolvente da catedral de Notre Dame. Nesta estação de metro existe uma casa de banho paga. Pode ser importante saber isto, pois já estão a andar há algum tempo. Entrar num café para ir à casa de banho não é aceitável, têm de consumir, e um café não custa 50 cêntimos. Nesta zona ainda estão no Cartier Latin. Toda esta zona tem esse nome, por ser o antigo bairro dos estudantes que vinham do mundo latino medieval para estudar na prestigiada universidade medieval de Paris. Apesar da abertura das grandes avenidas no século XIX ainda encontram aqui traços das antigas ruas medievais, com os seus traçados menos lineares e estreitos, criando um ambiente pitoresco. Não podia haver melhor local para existirem tantas lojas de jogos e tabuleiro e muitas outras de interesse “geek”.

Extras:
Mas Paris tem muito mais lojas de jogos, já visitei outras, só que não ficam perto e obrigam a deslocações pelo metro. Uma das mais interessantes, que fica do outro lado do rio, é a Troll2Jeux. Para além de loja tem várias pequenas salas, em pisos desnivelados, onde se estão sempre a jogar coisas, especialmente trading card games como Magic: The Gathering. Mas também podem jogar outros jogos. Para além de uma boa variedade de jogos organizam dias temáticos. Uma das noites por semana é reservada aos jogos de tabuleiro modernos. Os preços são médios.

Para além das lojas ainda existem vários boardgame cafés, locais onde podem ir beber um copo e jogar, ou até comer uma pequena refeição. Existem vários pela cidade. Serão os locais mais apropriados para jogar e conhecer pessoas. Isso fica para outro texto.

Referências:
Todas as fotografias foram obtidas através do Google Maps, através das ferramentas de edição de mapas e do Street View.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...